quarta-feira, setembro 5
O Não-tecto
Não são os dedos de Adão e deus; não é o tecto da Capela Sistina e nada tem de Michelangelo; não existem criações divinas nem o primeiro homem; é simplesmente o toque do amor.
«Já alguém convidou o marginal para ir tomar café?»
Nos últimos dias tenho dado por mim a pensar no quão diferente é a minha vida dos restantes jovens. Bom, o que me faz ser diferente, na verdade, é uma opção. Uma opção que, a meu ver, é uma pequena opção. Não passa disso. Mas para os meus amigos e prováveis amigos, é uma escolha tremendamente louca que transforma a forma como olham para mim.
Optei por não ter facebook. Nunca vi necessidade de integrar uma rede social, sendo que sempre achei não precisar de conhecer mais ninguém ou de estar permanentemente ligado a um computador para relacionar-me com as pessoas. No entanto, sinto-me realmente descontextualizado, à margem dos acontecimentos e da últimas mais importantes sobre isto ou aquilo. E o sentimento de marginalizado aumenta quando os meus amigos e prováveis amigos sabem da minha opção. Quando estamos sentados num café a conversar, qualquer assunto culmina num circulo fechado à volta da mesa, ao qual eu não faço parte. Esse assunto torna-se desviante quando qualquer um dos meus amigos ou prováveis amigos diz que publicou uma coisa no facebook. De repente, todos sentem-se senhores da palavra e desenrolam o assunto, enquanto eu - já por hábito - finjo atar os atacadores ou ajeitar o cabelo. O assunto, publicado no facebook, leva a outro com origens surpreendentes no... facebook. Tento não ficar de fora e procuro na minha memória algum assunto que esteja em voga, que até seja mais ou menos de grande amplitude. Porém, fracasso sempre porque para os meus amigos e prováveis amigos, o assunto já passou à história.
E isto acontece em média de 5 em 5 minutos (ou menos). Imaginem quantas vezes tenho de atar os atacadores, despentear e voltar a formatar o penteado. Mas isto é com os meus amigos. Veremos agora o que se sucede com os meus prováveis amigos - aqueles com potencial para eu me tornar amigo, através de uma conversa e troca de ideias.
Quando me encontro com amigos de um amigo meu, quase como por fatalidade do destino, as conversas acabam com esta expressão: «o quê, meu, não tens facebook?». Já nem vale a pena tentar explicar a razão pela qual abdiquei de não pertencer a uma rede social, sendo que já tomei por adquirida a resposta ou comentário desses prováveis amigos: «como é possível?!». Nessa altura, afasto-me. De facto, sou sempre o último a saber de um evento e o último a ser convidado seja para o que for. Aceito a marginalização, pois é como me sinto e como olham para mim: como é possível viveres sem facebook?. Eu cá tenho sobrevivido e julgo não ser um animal há vários anos em cativeiro (julgo eu, não é?).
Se me perguntarem se resisto à tentação de criar conta numa rede social - e isto admitindo que, por vezes, acuso a pressão -, respondo não sei. E não sei mesmo: às vezes, desconectado com a actulidade, quase que cedo à tentação e digo sim à aventura da partilha; outras, marginalizado e longe da galáxia "facebookiana", sabe-me bem ser diferente. É bom ser diferente, tiro gozo disso embora saiba que deixo de fazer parte daquele círculo imaginário vanguardista. Quero dizer, eles sabem sempre mais do que eu e, como pertencem à comunidade, dominam com maior facilidade os seus assuntos. Como é que se retira gozo disso? É bom ser marginal até no próprio grupo de amigos. Pelo menos sei que o convite para ir tomar café é especial e diferente dos restantes; têm que ter uma preocupação extra em usar outros meios para convidarem. Isso chega para me sentir bem.
Optei por não ter facebook. Nunca vi necessidade de integrar uma rede social, sendo que sempre achei não precisar de conhecer mais ninguém ou de estar permanentemente ligado a um computador para relacionar-me com as pessoas. No entanto, sinto-me realmente descontextualizado, à margem dos acontecimentos e da últimas mais importantes sobre isto ou aquilo. E o sentimento de marginalizado aumenta quando os meus amigos e prováveis amigos sabem da minha opção. Quando estamos sentados num café a conversar, qualquer assunto culmina num circulo fechado à volta da mesa, ao qual eu não faço parte. Esse assunto torna-se desviante quando qualquer um dos meus amigos ou prováveis amigos diz que publicou uma coisa no facebook. De repente, todos sentem-se senhores da palavra e desenrolam o assunto, enquanto eu - já por hábito - finjo atar os atacadores ou ajeitar o cabelo. O assunto, publicado no facebook, leva a outro com origens surpreendentes no... facebook. Tento não ficar de fora e procuro na minha memória algum assunto que esteja em voga, que até seja mais ou menos de grande amplitude. Porém, fracasso sempre porque para os meus amigos e prováveis amigos, o assunto já passou à história.
E isto acontece em média de 5 em 5 minutos (ou menos). Imaginem quantas vezes tenho de atar os atacadores, despentear e voltar a formatar o penteado. Mas isto é com os meus amigos. Veremos agora o que se sucede com os meus prováveis amigos - aqueles com potencial para eu me tornar amigo, através de uma conversa e troca de ideias.
Quando me encontro com amigos de um amigo meu, quase como por fatalidade do destino, as conversas acabam com esta expressão: «o quê, meu, não tens facebook?». Já nem vale a pena tentar explicar a razão pela qual abdiquei de não pertencer a uma rede social, sendo que já tomei por adquirida a resposta ou comentário desses prováveis amigos: «como é possível?!». Nessa altura, afasto-me. De facto, sou sempre o último a saber de um evento e o último a ser convidado seja para o que for. Aceito a marginalização, pois é como me sinto e como olham para mim: como é possível viveres sem facebook?. Eu cá tenho sobrevivido e julgo não ser um animal há vários anos em cativeiro (julgo eu, não é?).
Se me perguntarem se resisto à tentação de criar conta numa rede social - e isto admitindo que, por vezes, acuso a pressão -, respondo não sei. E não sei mesmo: às vezes, desconectado com a actulidade, quase que cedo à tentação e digo sim à aventura da partilha; outras, marginalizado e longe da galáxia "facebookiana", sabe-me bem ser diferente. É bom ser diferente, tiro gozo disso embora saiba que deixo de fazer parte daquele círculo imaginário vanguardista. Quero dizer, eles sabem sempre mais do que eu e, como pertencem à comunidade, dominam com maior facilidade os seus assuntos. Como é que se retira gozo disso? É bom ser marginal até no próprio grupo de amigos. Pelo menos sei que o convite para ir tomar café é especial e diferente dos restantes; têm que ter uma preocupação extra em usar outros meios para convidarem. Isso chega para me sentir bem.
sábado, setembro 1
Portugal Público: um jogo em prolongamento
Claustrofóbico e sufocado: era como vivia Portugal - e a senhora da imagem que poderia muito bem ser a minha avó - para lá dos 38 anos passados (verdade, foi em 1974 que se cravou a Liberdade em terras lusas). A eficácia da Máquina evaporizava qualquer tentativa de manifestação de liberdades individuais ou colectivas, sendo que os ataques da censura mutilavam a troca de ideias e impediam as relações sociais. Espaço Público? Absolutamente condenado. Os resultados da acção invisível da Máquina eram totais, enfim, uma sociedade completamente fechada, anestesiada e adormecida.
Esta é a fotografia que adquiri do meu país através dos longos e perturbadores monólogos dos meus professores de História, sempre naquele tom monocórdico, trágico, sem volta a dar. Mas voltando as páginas ao presente, sem voltar as costas ao Passado, o que é hoje o Espaço Público Português?
Eu diria que a Máquina é outra mas a música é a mesma: de facto, parece que expulsamos toda a parte da História que não era desejada porque poderia regressar de um nevoeiro, assombrando o «Novo Estado» que se avizinhava; pois assim se fez e apenas fora expulsa parte da História, como por exemplo, substituir o nome da ponte sobre o Tejo (se calhar porque alguém poderia mesmo emergir do nevoeiro e condenar Portugal mais 40 anos). O que não fizemos foi eliminar a doença contagiante, hoje crónica, de continuar instalados fora do que realmente acontece no nosso território.
Respondendo à questão: na minha óptica, o Espaço Público Português encontra-se, ainda, em stand-by. Por inércia do povo? Também. Mas existe mais: um espaço artificial criado em televisão de debate ideológico, político e partidário que existe por necessidade da esfera política em manter sustentável as barreiras impenetráveis contra o pensamento criativo; esse circuito mediatizado está normalizado, pautado com regras, abolindo as intervenções energéticas e fulgurantes dos participantes, e as opiniões desses políticos são opiniões superficiais, não de políticos mas de comentadores. Limitam-se a comentar, a discursar sobre isto e aquilo que se passa nesse circuito fechado, ao qual o povo mal consegue aceder não por incapacidade mas por insuficiência de portas abertas: programas com participação telefónica? São foruns controlados pelas entidades, orientados por pseudo-políticos que comentam o discurso de um político que já havia comentado o discurso de outro político.
Trata-se de um circuito fechado e com mecanismos personalizados, ocultos e capazes de esquematizar todas as suas esferas, exercendo relações de poder e outro tipo de pressões para seu próprio bem. O que haveria de ser deste circuito se desse oportunidade ao real Espaço Público? Certamente, um eclipse. Destruição era o seu caminho, uma vez que a sua democratização acabaria por romper a mecânica da obediência televisiva, onde o telespectador é o ouvinte e a sua opinião é a opinião pré-fabricada, um constructo falso, não-dedutivo, não-experimentado; o telespectador é obediente, cala e ouve, pertence a uma massa esfomeada por imagens e pelas afirmações dos políticos e consequentes re-afirmações dos comentadores.
Um real Espaço Público é o contacto próximo, minimamente mediado e universalmente aberto, com as devidas explicações, sem sermões. A Política em Portugal é «fraca» ou «chata» porque ninguém a percebe. Ninguém a percebe porque se fecha.
E dizia eu: passaram 38 anos desde a Revolução dos Cravos?
sexta-feira, agosto 31
Dinheiro real?
"O dinheiro é a essência alienada do trabalho e da existência do Homem; a essência domina-o e ele adora-a", Karl Marx sobre a alienação do trabalho e as suas críticas ao fetichismo da alta burguesia.
'Uma Noite em Casa de Amália': uma excelente tertúlia
'Uma Noite em Casa de Amália' marca o regresso do gigante Filipe La Féria à encenação com um texto da sua autoria e um outro retorno: há muito que eu e os meus pais não nos sentávamos lado-a-lado no Politeama. Deixo desde já uma breve contextualização ao tempo histórico da peça.
Véspera de Natal de 1968: vivem-se altas temperaturas com o rebentação da guerra colonial, em Angola, e com o estado de saúde de A. O. Salazar; Marcello Caetano ascende ao trono. Portugal e o Estado Novo estão numa situação fragilizada, sobre escassas hipóteses de que o equílibrio político imposto triunfasse, novamente.
Entretanto, o Futebol e o Fado são as escapatórias do povo que vive aprisionado à sua própria condição, mergulhado na inércia asfixiante.
Esta viagem à Primavera Marcelista, antes de sucumbir o regime ditatorial, Amália promove uma tertúlia em sua casa para receber o grande poeta (não somente brasileiro mas do Universo), Vinícius de Moraes, que será o seu último dia de viagem em Portugal, mais precisamente em Lisboa. Ary dos Santos, Natália Correia, David Mourão Ferreira, Maluda e outros compõem uma mistura de personagens com diversos ideais e inflamáveis linhas de pensamento que cruzarão fogo nas palavras.
Este encontro em palco entre os nossos Fado, Folclore e Humor, e os ritmos do Samba e da Bossa Nova, converte-se numa pura homenagem à cultura portuguesa e à veia mobilizadora dos portugueses. Com Amália Rodrigues a dirigir a tertúlia poética, são muitas as canções interpretadas de mãos dadas a Vinícius de Moraes, dando origem a uma maré libertária da alma colectiva do povo português.
O texto de La Féria lança-nos as sementes da ruptura e da revolução intelectual que o nosso país necessitava na época e hoje - subnutrido em inspiração e coragem -, escasseiam os movimentos e agrupamentos nas novas gerações com o intuito pensante e de abertura que nos permitam subir o degrau; os rasgos de alegria contra o abuso de poder ou o exercício duma cidadania mais digna, em nome daqueles que levaram Portugal a outro patamar.
quinta-feira, agosto 30
Marilyn Monroe: meio século depois
E mesmo meio século depois, o legado da estrela magnética mantem-se aceso e vivo em todos os cantos da arte. Esse património que roça os limiares da espiritualidade é o resultado de um esforço inesgotável: mais do que uma estrela, Monroe aceitou a sua condição natural e humana e procurou ser ela própria. Reivindicando o seu «eu» na exaustão, na fragmentação da sua identidade, Marilyn apagara todas as luzes, acabando por fechar a porta a todos os olhares que assaltavam a sua integridade individual.
50 anos depois, vejo Marilyn Monroe como uma rebelde em permanente revolução íntima, na luta constante pela afirmação da sua realidade que acabou por ser ultrapassada pela realidade que o mundo fabricou. Mesmo após a alvorada da sua existência, o maior reconhecimento que o mundo lhe pode oferecer é perguntar Quem foi Norma Jean Mortenson?
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